“Apanhei o táxi errado e entrei por engano no carro dos irmãos Moretti… dez minutos depois, o homem mais perigoso da cidade olhou para mim e disse ao motorista: ‘Não a levem para casa’.”

Eu fiquei olhando para a fotografia da minha porta, incapaz de desviar os olhos.

Tijolos vermelhos.

Uma pequena cobertura.

Um vaso com uma gerânio quase morto, que eu já estava há uma semana planejando jogar fora.

Não havia como ser um engano.

Aquela era a minha casa.

— Quem mandou isso?

Daniel estendeu a mão.

— O telefone.

Instintivamente, apertei o aparelho contra o peito.

— Não.

Ele me olhou.

— Emma.

— Eu não conheço você.

— Justamente por isso não estou pedindo que confie em mim.

— Então o que está pedindo?

— Que não faça nenhuma besteira.

Alex falou em voz baixa:

— Deixa eu ver o número.

Hesitei.

Depois, finalmente, estendi o telefone.

Daniel não o pegou.

Apenas olhou para a tela.

— Desconhecido?

— Sim.

— Já tinham mandado alguma coisa antes?

— Não.

— Você respondeu?

— Não.

— E não responda.

Olhei pela janela.

O táxi de verdade já havia ficado para trás fazia algum tempo.

— Afinal, o que está acontecendo?

Daniel se recostou no banco.

— Esta noite, documentos desapareceram de um dos nossos escritórios.

— Mas você disse que uma pessoa tinha desaparecido.

— Primeiro foram os documentos.

— E depois?

Alex interferiu:

— Depois desapareceu o homem que tentou nos dizer quem os havia levado.

Virei-me para ele.

— Desapareceu como?

— Não conseguimos mais contato.

— A polícia?

Daniel respondeu:

— Já foi avisada.

Aquilo me tranquilizou um pouco.

Muito pouco.

— Então por que vocês mesmos estão cuidando disso?

— Porque os documentos roubados dizem respeito à empresa.

— E?

Ele me encarou.

— E porque quem os pegou pode achar que você é uma testemunha.

Lembrei-me do homem.

Casaco escuro.

Cabelos molhados.

Voz educada.

“Senhorita, pode abrir o arquivo? O senhor Holland esqueceu de me deixar o acesso.”

Eu nem sequer conferi.

Porque ele falava com tanta segurança.

— Mas eu não vi nada.

— Você viu ele.

— Eu nem sei o nome dele.

— Ele não sabe disso.

Era lógico.

E assustador.

Olhei novamente para a mensagem.

— Como eles sabem meu endereço?

Alex deu um sorriso sem humor.

— Você trabalha na nossa empresa.

— Isso não responde à pergunta.

— O endereço está no sistema de recursos humanos.

Olhei para Daniel.

— Então é alguém de dentro?

Ele não respondeu imediatamente.

— É possível.

O carro deixou a avenida principal.

— Para onde estamos indo?

— Para um hotel.

— De vocês?

— Não.

Aquilo me surpreendeu.

— Por que não o de vocês?

Alex respondeu:

— Porque, se o problema realmente estiver dentro da empresa, o último lugar para onde deveríamos levá-la é um estabelecimento nosso.

Eu olhava para os dois, tentando conciliar duas imagens.

Os irmãos Moretti dos rumores do escritório.

Os homens sobre quem os colegas cochichavam no elevador.

E aqueles dois sujeitos que agora explicavam, de maneira perfeitamente racional, por que não queriam me levar para um hotel que pertencesse à própria família.

— Vocês são mesmo tão perigosos quanto dizem?

Alex riu.

Daniel fechou os olhos.

— Agora não.

— Só estou curiosa.

— Por quê?

— Porque entrei por acaso no carro de vocês e agora descobri que talvez tenha sido o erro mais feliz do meu dia.

Alex olhou para o irmão.

— Gostei dela.

Daniel ignorou.

O hotel era pequeno.

Nada de saguão de mármore.

Nenhum segurança de terno preto.

Um hotel executivo comum.

Daniel saiu primeiro.

— Fique no carro.

— Por quê?

— Vamos verificar a entrada primeiro.

— Você é sempre assim?

— Assim como?

— Mandão.

Alex deu um sorriso.

— Sempre.

Poucos minutos depois, subimos para um quarto no sexto andar.

Alex ligou para alguém e pediu que trouxessem roupas secas.

Eu protestei:

— Não preciso de roupa.

Ele olhou para a manga molhada da minha blusa.

— Precisa.

Daniel estava perto da janela, com o telefone na mão.

— O que aconteceu?

Ele se virou.

— Tem polícia na frente da sua casa.

— O quê?!

Levantei de um salto.

— Quem chamou?

— Um vizinho.

— Por quê?

— Viu dois homens perto da entrada.

Minhas mãos começaram a tremer.

— Eles entraram?

— Não.

— Por quê?

— Parece que estavam esperando por você.

Precisei me sentar.

Agora quase não restavam dúvidas.

— Quero falar com a polícia.

— Vai falar — disse Daniel.

— Agora.

— Já estão providenciando a ligação.

Dez minutos depois, um detetive entrou em contato comigo.

O nome dele era Thomas Rivera.

Ele não tratava os irmãos Moretti como se fossem donos da cidade.

E eu gostei disso.

— Senhorita Walker, conte tudo desde o momento em que ficou sozinha no escritório.

Eu contei.

Sobre o homem.

Sobre o arquivo.

Sobre a pasta.

Sobre o táxi.

Sobre a mensagem.

Rivera perguntou:

— Consegue descrever o homem?

— Sim.

— Conseguiria reconhecê-lo em uma fotografia?

— Acho que sim.

— Certo.

Então perguntou:

— Por que você abriu o arquivo?

A pergunta me fez sentir uma idiota.

— Ele disse que trabalhava com o senhor Holland.

— Você verificou?

— Não.

— Por quê?

Fechei os olhos.

— Porque eu queria ir para casa.

— Entendo.

Ele não me julgou.

Apenas anotou.

Depois da conversa, Daniel disse:

— Não se culpe.

Olhei para ele.

— Foi a primeira coisa normal que você disse hoje.

Alex soltou um resmungo divertido.

Daniel ignorou.

Uma hora depois, chegou uma nova informação.

Identificaram o homem nas câmeras.

Michael Rayne.

Vice-diretor financeiro de uma das subsidiárias dos Moretti.

Eu o tinha visto algumas vezes.

Sempre com um terno caro.

Sempre sorrindo.

— Por que ele está roubando os documentos de vocês?

Alex respondeu:

— Ainda não sabemos.

— O que havia na pasta azul?

Daniel finalmente se sentou diante de mim.

— Contratos relacionados a um projeto de construção.

— E?

— Uma auditoria interna encontrou pagamentos suspeitos.

— Roubo?

— Possivelmente.

— Dinheiro de vocês?

— Dinheiro da empresa.

Ele falava com cuidado.

Entendi o motivo.

Nada havia sido provado ainda.

— Rayne sabia da auditoria?

— Agora parece que sim.

— E o senhor Holland?

Os dois ficaram em silêncio.

Fiquei tensa.

— O quê?

Daniel perguntou:

— Você tem certeza de que viu Holland depois das nove?

— Sim.

— Ele voltou?

— Sim.

— Sozinho?

Pensei por um instante.

— Não sei.

— O que ele fez?

— Entrou no escritório.

— E depois?

— Não vi.

Alex se levantou.

— Droga.

— O quê?

— Holland disse à segurança que havia ido embora às oito e quarenta.

Olhei para o relógio.

— Ele está mentindo.

Daniel já estava ligando para alguém.

Poucos minutos depois, a situação ficou ainda pior.

A câmera do estacionamento mostrava o carro de Holland.

Ele realmente havia saído às 20h41.

Mas o próprio Holland retornara ao prédio pela entrada lateral às 21h08.

Sem o carro.

Vindo do outro lado do quarteirão.

— Por quê?

— É isso que estão tentando descobrir.

Lembrei-me de mais uma coisa.

— Esperem.

Os dois olharam para mim.

— Quando Michael pediu que eu abrisse o arquivo, ele tinha um cartão de acesso.

— Então por que pediu a você?

Fiquei imóvel.

Claro.

Se ele era um funcionário de alto escalão, por que precisava de mim?

— Ele disse que o cartão não estava funcionando.

Daniel perguntou:

— Você passou o seu?

— Sim.

Silêncio.

— O quê?

Alex falou devagar:

— Então seu acesso vai aparecer no registro.

Foi como se eu tivesse levado um golpe.

— O quê?

— O arquivo foi aberto usando o seu cartão.

— Mas…

Agora tudo começava a fazer sentido.

— Ele queria que parecesse que fui eu quem entrou?

Daniel assentiu.

— É possível.

Meu corpo inteiro ficou gelado.

— Então não sou apenas uma testemunha casual.

— Não.

— Estão tentando me incriminar.

— Parece que sim.

Levantei-me.

— Eu sou apenas uma secretária.

— Para esse tipo de coisa, isso pode ser até mais conveniente — disse Alex.

— Obrigada.

— Não foi isso que eu quis dizer…

— Muito reconfortante.

Daniel olhou para o irmão.

Alex levantou as mãos.

— Estou quieto.

No dia seguinte, a polícia pediu que eu fosse prestar depoimento oficialmente.

Daniel ofereceu um carro.

Recusei.

— Por quê?

— Porque não quero chegar à polícia acompanhada por dois Moretti.

Alex riu.

— Sensato.

— Vou chamar um táxi.

Os dois olharam para mim.

Eu também percebi o absurdo.

— Está bem. Sem táxi.

Fomos com o detetive.

Na delegacia, mostraram-me algumas fotografias.

Apontei com segurança para Michael Rayne.

Depois vi Holland.

— Ele estava no escritório depois das nove. Tenho certeza.

Rivera perguntou:

— Tem certeza absoluta?

— Cem por cento.

— Conversou com ele?

— Ele perguntou por que eu ainda estava lá.

— O que você respondeu?

— Que estava terminando um relatório.

— Ele viu sua bolsa?

— Sim.

— Seu telefone?

— Provavelmente.

— Onde ele estava depois?

— Não sei.

Então o detetive colocou uma folha impressa diante de mim.

— Reconhece?

Era uma lista de funcionários.

Meu nome estava destacado.

Ao lado, um horário.

21h26.

— O que é isso?

— Um arquivo foi aberto no computador de Holland.

— Que arquivo?

— Dados do pessoal.

Minha boca ficou seca.

— Meu endereço.

— Entre outras informações.

Foi naquele momento que finalmente entendi.

Os homens na frente da minha casa não haviam encontrado meu endereço por acaso.

Alguém o havia passado para eles.

— Holland?

— Ainda não podemos afirmar.

— Mas foi no computador dele.

— Sim.

— Onde ele está?

Rivera fez uma pausa.

— Não conseguimos contato.

De novo aquela expressão.

— Desapareceu?

— Estamos tentando localizar.

Saí da delegacia quase ao meio-dia.

A chuva havia parado.

Daniel estava na entrada.

Sozinho.

— Eu disse que não queria carro.

— Não trouxe carro.

— Então por que está aqui?

— Queria saber se você está bem.

Olhei para ele.

— Você veio sozinho?

— Sim.

— O homem mais perigoso da cidade está parado na frente de uma delegacia esperando uma secretária?

Ele respondeu, irritado:

— Não me chame assim.

— Assim como?

— O homem mais perigoso da cidade.

— E não é verdade?

— A maior parte dos rumores é bobagem.

— Que parte não é?

Ele me olhou.

— Emma.

— Está bem.

Começamos a caminhar em direção a um café.

Perguntei:

— Por que você estava perto do meu escritório ontem?

Ele diminuiu o passo.

— Estávamos vigiando Rayne.

— Vocês?

— Auditores particulares.

— Mas o carro de vocês estava esperando por ele?

— Sim.

Foi por isso que o motorista havia ficado surpreso quando eu entrei.

— Então eu realmente entrei no carro que estava esperando um homem suspeito de roubo?

— Sim.

— Excelente.

— Foi um acaso.

— E os irmãos Moretti simplesmente apareceram logo depois por coincidência?

— Estávamos no prédio ao lado.

— Claro.

Pela primeira vez, ele sorriu.

Só um pouquinho.

Dois dias depois, a polícia encontrou Holland.

Vivo.

Em um motel nos arredores da cidade.

Ele afirmou que havia ficado assustado e fugido.

Por quê?

Porque descobrira irregularidades financeiras e acreditava que Rayne tentaria culpá-lo.

Mas a história dele começou a desmoronar rapidamente.

Os registros mostravam que Holland e Rayne haviam se encontrado várias vezes fora do trabalho.

Encontraram mensagens no telefone dele.

Não eram uma confissão de crime.

Mas eram suficientes para deixar claro:

eles discutiam a auditoria interna.

Algumas semanas depois, o quadro ficou mais claro.

Rayne participava de um esquema de superfaturamento envolvendo vários fornecedores.

Holland ajudava a esconder algumas das irregularidades.

Quando a auditoria se aproximou dos documentos que poderiam revelar tudo, decidiram retirar os originais do arquivo.

Mas havia um problema.

O registro de acesso.

Eles precisavam de outra pessoa.

Eu.

Uma funcionária de nível inferior.

Que havia ficado trabalhando até tarde.

Rayne esperou deliberadamente até quase todos terem ido embora.

Pediu que eu abrisse a porta.

E, mais tarde, Holland acessou meus dados pessoais.

A investigação concluiu que a ideia era criar a aparência de que eu poderia ter sido a pessoa que retirou os documentos.

— Mas por que os homens estavam na minha casa? — perguntei a Rivera.

— Ainda não podemos afirmar com certeza.

— Queriam me assustar?

— Provavelmente.

— Me matar?

Ele balançou a cabeça.

— Não temos provas disso.

Por algum motivo, era importante ouvir aquilo.

O medo gosta de imaginar o pior.

Mas a realidade já era ruim o bastante.

Os homens que estavam na minha casa eram conhecidos de Rayne.

Um deles admitiu mais tarde que haviam sido instruídos a “conversar” comigo e descobrir o que eu tinha visto.

Não era sequestro.

Não era assassinato.

Mas, para mim, já era suficiente.

Rayne e Holland foram oficialmente afastados.

Depois começaram os processos criminais e civis.

Nada terminou em uma semana.

A auditoria levou meses.

Os fornecedores foram investigados separadamente.

Alguns pagamentos eram legítimos.

Outros, não.

Eu não continuava mais trabalhando na empresa.

No começo, achei que seria demitida.

Mas Daniel me chamou ao escritório.

Um escritório de verdade.

Com janelas enormes.

Sem chuva.

— Queremos oferecer outra posição a você.

— Não.

Ele ficou surpreso.

— Você nem ouviu a proposta.

— Não quero trabalhar em um lugar onde um dia me usaram como uma chave para outra pessoa.

— Entendo.

— De verdade?

— Sim.

— Então por que oferecer?

— Porque você fazia um bom trabalho.

— Vocês descobriram isso depois que eu entrei por acaso no carro de vocês?

Ele suspirou.

— Alex verificou.

— Claro. Alex.

— Seus superiores deram boas referências.

— Menos Holland.

— Menos ele.

Sorri.

— Ainda assim, não.

— Tudo bem.

Ele não insistiu.

Aquilo me surpreendeu.

Uma semana depois, encontrei emprego em um pequeno escritório de arquitetura.

Salário menor.

Menos andares.

Nenhum Moretti.

Durante os primeiros meses, sempre que entrava em um táxi, conferia o número três vezes.

Certa vez, o motorista perguntou:

— Está esperando alguém?

Eu ri.

— Só tive uma experiência ruim.

Eu e Daniel trocávamos mensagens de vez em quando.

Raramente.

Certa vez, ele mandou:

“Hoje está chovendo perto do seu escritório. Não entre em carros de estranhos.”

Respondi:

“Muito engraçado.”

Alex mandou uma mensagem separada:

“Ele ficou dez minutos ensaiando essa piada.”

Eu não sabia se era verdade.

Mas acreditei.

Um ano depois, o processo judicial ainda estava em andamento.

Prestei depoimento.

O que mais me irritava era que os advogados perguntaram várias vezes:

— Por que você não verificou a identidade de Rayne?

Eu sempre respondia:

— Porque ele ocupava um cargo superior ao meu, falava com segurança e parecia ter autoridade para pedir aquilo.

E acho que essa era a essência de toda aquela história.

Com frequência, confundimos segurança com autoridade.

Eu não abri a porta para aquele homem porque fosse burra.

Abri porque ele sabia exatamente como parecer alguém a quem ninguém faz perguntas.

Em uma noite chuvosa, quase exatamente dois anos depois, voltei a ficar até tarde no trabalho.

Quando saí, havia dois carros pretos parados junto à calçada.

Fiquei imóvel.

Depois olhei cuidadosamente para as placas.

Meu táxi era o segundo.

Abri a porta.

Não havia ninguém no banco traseiro.

O motorista perguntou:

— Green Street?

Sorri.

— Não mais.

Depois daquela noite, mudei de casa.

Novo endereço.

Novo trabalho.

Novo hábito de verificar portas, placas e pessoas que dizem: “É só abrir, eu tenho autorização.”

Entrei no carro.

Ele arrancou.

E, quando passamos pelo primeiro carro preto, o vidro abaixou.

Alex estava ao volante.

Daniel estava ao lado dele.

Alex abriu um sorriso enorme.

— Dessa vez escolheu certo!

Mostrei o dedo do meio para ele.

Daniel começou a rir.

O motorista do meu táxi olhou para mim, surpreso, pelo retrovisor.

— Você conhece aqueles homens?

Me acomodei melhor no banco.

— Infelizmente.

Ele olhou novamente para o carro luxuoso.

— Parece que são os irmãos Moretti.

— Sim.

— Dizem que são perigosos.

Olhei para as luzes que desapareciam no retrovisor.

— Sabe, os homens mais perigosos daquela noite não estavam naquele carro em que entrei por acaso.

Porque, às vezes, o medo erra o endereço.

Eu tinha medo dos irmãos Moretti apenas porque ouvira rumores sobre eles.

Já do homem para quem eu mesma abri a porta do arquivo, não tive medo nenhum.

Ele sorria.

Vestia um terno caro.

Falava com educação.

E parecia exatamente o tipo de pessoa em quem se pode confiar.

Às vezes, um erro cometido por acaso realmente nos leva para o lugar errado.

Mas, outras vezes, é justamente esse erro que impede que cheguemos ao lugar onde alguém já está nos esperando.