Após a morte do marido, a mulher de setenta anos decidiu remodelar a casa pela primeira vez em quarenta anos de vida em comum. Tinha passado quase toda a sua vida com ele, mas a casa sempre teve regras e proibições. Uma delas dizia respeito à divisão no final do corredor. O marido nunca a deixava entrar. Alegava que era a sua oficina, que ali guardava ferramentas e documentos antigos, e que ela nada tinha a ver com aquele local.
Sempre que ela mencionava reformas, ele interrompia imediatamente a conversa. “Não toque nas paredes. Não faça nenhuma remodelação. Nada de mudanças.”
Com o tempo, habituou-se ao silêncio, mas, ao longo dos anos, um ressentimento silencioso cresceu dentro dela. Parecia-lhe estranho não poder abrir uma única porta na sua própria casa. Por vezes, passava por aquela divisão e sentia uma raiva contida. Ao fim de quarenta anos, essa proibição transformara-se em quase ódio — um absurdo que ela nunca conseguiria compreender.
Quando o marido morreu, a casa pareceu subitamente diferente. Silenciosa. Vazia. E, pela primeira vez, só dela.

Um mês após o funeral, ela abriu finalmente a porta proibida. O quarto estava cheio de ar viciado. Havia guarda-roupas pesados, uma mesa velha e as paredes estavam cobertas por uma espessa camada de reboco áspero. Tudo parecia estranhamente sólido, como se tivesse sido construído para durar séculos.
Decidiu começar a reforma por ali, como se quisesse desafiar o passado. Primeiro, retirou os móveis. Depois, começou a partir o reboco antigo com um martelo. A parede revelou-se incrivelmente espessa e dura. Cada golpe magoava-lhe as mãos. O gesso foi-se desfazendo lentamente. Por baixo, apareceu uma camada de tijolos e, atrás dos tijolos, outra camada.
Ela cansou-se mais depressa do que esperava. As suas mãos começaram a tremer e a sua respiração ficou cada vez mais ofegante. Então, ela pegou na broca de impacto. Quando a broca começou a perfurar a parede, um som abafado ecoou pelo quarto e pó de tijolo caiu no chão.
NUM MOMENTO, A FURADEIRA DE REPENTE DESAPARECEU NO VAZIO. Pedaços de entulho saltaram da parede, e um espaço escuro surgiu no seu interior. A princípio, ela pensou que fosse apenas um recesso. Iluminou-o com uma lanterna.
O feixe de luz incidiu sobre algo branco e curvo. Por um segundo, ela não conseguiu perceber o que estava a ver. Depois percebeu o que estava dentro da parede — e quase desmaiou de medo. 😨😯
Ela viu o contorno de um crânio humano.
A mulher recuou abruptamente e quase caiu. No interior da parede, por detrás de várias camadas de tijolos e argamassa, jazia um corpo humano. O esqueleto de uma jovem mulher, emparedado na vertical, como se alguém o tivesse escondido deliberadamente na espessura da parede.
Com as mãos trémulas, ligou para a polícia.

Quando os investigadores e técnicos chegaram, a parede tinha sido completamente demolida. Os exames revelaram que a mulher tinha morrido quarenta e dois anos antes, vítima de um forte golpe na nuca. Documentos e ficheiros revelaram que era a primeira mulher do marido. A mesma mulher que, anos antes, lhe dissera que fugira com o amante e o abandonara.
Os vizinhos lembravam-se da história. Mas nunca ninguém fez muitas perguntas.
Acontece que ela não fugiu. Foi assassinada e escondida na parede da sua própria casa.
A mulher de setenta anos vivia ao lado do assassino há quarenta anos, sem suspeitar de nada.
