— Que pagamento?
Damian não respondeu.
Eu fiquei olhando para ele.
Era um homem que eu conhecia havia quase metade da minha vida adulta.
Eu sabia como ele franzia o nariz quando mentia.
Como passava o polegar sobre a aliança quando estava nervoso.
Como levantava ligeiramente o ombro direito quando queria ganhar tempo.
Naquele momento, fez as três coisas, uma atrás da outra.
— Damian.
— É apenas um seguro.
— Que seguro?
— Da casa.
Meu pai perguntou imediatamente:
— A casa tinha seguro?
— Claro.
— Em nome de quem?
Damian olhou para ele, irritado.
— Nosso.
Eu disse baixinho:
— Nosso, não.
Ele se virou para mim.
— O quê?
— Foi você quem contratou a apólice.
Depois que compramos o apartamento, Damian assumiu o seguro do imóvel.
Eu só tinha assinado o primeiro formulário.
Depois, todos os anos, ele dizia que havia renovado tudo.
Nunca me passou pela cabeça verificar.
— Natália, você não está em condições de discutir documentos agora.
Minha mãe respondeu bruscamente:
— Ela está em condições de fazer perguntas.
— Não estou falando com vocês.
Meu pai deu um passo à frente.
— Agora está.
Levantei a mão.
— Pai.
Eu não queria uma discussão.
Não naquele dia.
— Damian, você disse que eu receberia uma indenização pelas lesões.
— Sim.
— Por quê?
— Porque existe cobertura para isso.
— Que cobertura?
Ele voltou a ficar em silêncio.
Peguei meu telefone.
— Posso ligar para a seguradora.
— Agora?
— Sim.
Ele riu rápido demais.
— Num domingo à noite?
— Existe uma linha de atendimento vinte e quatro horas.
O sorriso desapareceu.
— Não faça drama.
Eu liguei.
O atendente da seguradora não pôde revelar imediatamente os detalhes sem uma verificação adicional da minha identidade.
Mas confirmou uma coisa.
Realmente havia um processo de sinistro aberto por causa do incêndio.
A solicitação tinha sido apresentada dois dias depois do ocorrido.
Naquela época, eu estava na UTI.
— Quem apresentou?
— Senhora Ortiz, essa informação poderá ser fornecida pelo departamento de regulação de sinistros depois que o acesso ao processo for confirmado.
— Eu sou Natália Ortiz.
— Eu entendo. Mas na solicitação consta um representante.
— Quem?
O atendente fez uma pausa.
— Damian Escobar.
Minha mãe se sentou.
Meu pai olhou para mim.
Eu não senti nada.
Ainda.
— Ele tinha autorização?
— Há uma procuração anexada ao processo.
Fechei os olhos.
— Que procuração?
— Não posso interpretar a validade jurídica dela. Só posso confirmar que o documento está anexado.
Pedi que me enviassem as instruções para obter uma cópia.
Depois da ligação, minha mãe perguntou:
— Você deu uma procuração a ele?
— Dei, uma vez.
— Quando?
— Uns três anos atrás.
— Para quê?
Eu me lembrei.
Estávamos comprando uma pequena sala comercial como investimento.
Eu teria que viajar para cuidar da minha mãe, que estava doente.
Damian pediu uma procuração limitada para poder assinar alguns documentos relacionados à negociação.
— Ela deveria ser apenas para assuntos imobiliários.
Meu pai disse:
— Então amanhã vamos ao advogado.
Assenti.
Naquela noite, não dormi.
O curativo coçava.
Meu braço doía.
Mas, pela primeira vez, a dor das queimaduras parecia quase secundária.
Eu pensava em Damian.
Na solicitação do seguro.
Na viagem de trabalho dele.
No divórcio que já estava sendo preparado antes da minha cirurgia.
E no incêndio.
Esse pensamento me assustou.
Eu o interrompi imediatamente.
Não.
O incêndio não significava que havia um crime.
Uma traição não transforma automaticamente uma pessoa em incendiária.
Eu não tinha uma única prova de que Damian tivesse qualquer relação com a causa do incêndio.
E não queria me tornar uma mulher que, a partir daquele momento, enxergasse uma conspiração em tudo.
No dia seguinte, meu pai me levou ao escritório da advogada.
Ela se chamava Elena Rios.
Era especializada em disputas envolvendo seguros e questões familiares.
Coloquei diante dela uma cópia da antiga procuração.
Elena leu durante muito tempo.
Depois levantou os olhos.
— Esta procuração é mais abrangente do que a senhora se lembra.
— Até que ponto?
— Ela permite que seu marido a represente em determinadas questões patrimoniais e relacionadas a seguros.
Senti um frio.
— Eu nunca teria assinado uma coisa dessas.
— A assinatura é sua?
Olhei para o documento.
Era.
— Parece que sim.
— A senhora assinou o documento inteiro?
— Assinei um pacote no cartório.
— Leu?
Senti vergonha.
— Não completamente.
Elena não me deu sermão.
Por isso, gostei dela imediatamente.
— Então o primeiro passo é obter cópias de todos os atos realizados com essa procuração.
— É possível revogá-la?
— Sim.
— Hoje.
Ela assentiu.
— Vamos fazer isso.
Três dias depois, já tínhamos os documentos do processo do seguro.
O corpo de bombeiros indicava como causa preliminar:
uma falha elétrica na área do quarto de hóspedes.
Não havia sinais de incêndio criminoso no relatório inicial.
Soltei o ar.
Era importante ver aquilo.
Pelo menos isso.
Damian não havia tentado me queimar.
Mas, a partir daí, as coisas ficaram piores.
A apólice incluía vários tipos de cobertura.
Danos ao imóvel.
Alojamento temporário.
Bens pessoais.
Despesas médicas dentro de determinados limites.
E uma cobertura adicional específica para casos de lesões graves sofridas pela pessoa segurada.
— Qual é o valor? — perguntei.
Elena me mostrou.
Li novamente.
— Três milhões de pesos?
— É o limite máximo. O valor efetivo depende da classificação das lesões e das condições da apólice.
— Damian sabia?
— Ele apresentou a solicitação.
Claro que sabia.
— O dinheiro já foi pago?
— Não.
— Por quê?
— Parte da documentação ainda não foi concluída. A perícia médica continua.
Virei a página.
— O que é isso?
Elena franziu a testa.
— Uma ordem de transferência.
— Para quem?
— Para uma conta de investimento conjunta.
— Nossa?
— Formalmente, conjunta.
Eu conhecia aquela conta.
Mas não a usava havia quase dois anos.
Damian administrava os investimentos sozinho.
— Ele poderia retirar o dinheiro sozinho?
— Precisamos verificar as autorizações bancárias.
As duas semanas seguintes foram as mais estranhas da minha vida.
Eu fazia curativos.
Fisioterapia.
Tentava aprender a olhar tranquilamente para o meu próprio reflexo.
E, ao mesmo tempo, com Elena, examinava os documentos financeiros do meu casamento.
Não encontramos milhões escondidos.
Não encontramos uma elaborada organização criminosa.
Encontramos algo muito mais banal.
E não menos devastador por isso.
Damian levava uma vida dupla havia quase um ano.
A mulher se chamava Verônica Salas.
Ela trabalhava no mesmo grupo de construção em que ele era gerente financeiro.
Era com ela que ele fazia as supostas “viagens de trabalho”.
Era para ela que alugava um apartamento em Puerto Vallarta.
E era o número dela que aparecia com mais frequência nas despesas de táxi, restaurantes e hotéis.
Perguntei a Elena:
— Ele usou nosso dinheiro?
— Parte parece ter vindo de recursos pessoais. Parte, provavelmente, da conta conjunta.
— E dinheiro da empresa?
— Até agora, não vejo isso.
Aquilo era importante.
Não podíamos transformar uma traição moral em crime financeiro sem provas.
Mas então o banco enviou o histórico da conta de investimentos conjunta.
Sete meses antes do incêndio, Damian começou a retirar pequenas quantias.
Não eram valores enormes.
Cinquenta mil pesos.
Setenta.
Cento e vinte.
Depois devolvia uma parte.
Depois retirava novamente.
No total, faltavam cerca de novecentos mil pesos.
— Para onde foram? — perguntei.
— Para outra conta.
— De quem?
— Pessoal dele.
E, de lá, o dinheiro seguia adiante.
Parte foi usada para pagar o aluguel do apartamento de Verônica.
Outra parte foi usada na compra de um carro.
Não era de luxo.
Mas era novo.
Registrado em nome dela.
Fiquei olhando para os documentos.
— Ele comprou um carro para ela?
Elena respondeu:
— Os valores estão relacionados no tempo. Mas, por enquanto, é mais correto dizer que recursos da conta dele foram transferidos para uma concessionária e que o veículo foi registrado em nome dela.
Isso mesmo.
Os documentos não têm obrigação de contar uma história bonita.
Eles simplesmente mostram para onde o dinheiro foi.
A parte mais desagradável apareceu nas mensagens que o próprio Damian anexou aos documentos do divórcio.
Ele queria provar que nosso casamento havia terminado antes mesmo do incêndio.
Para isso, apresentou mensagens trocadas com Verônica.
Juridicamente, aquilo deveria ajudá-lo.
Humanamente, destruiu a última dúvida que eu ainda tinha.
Duas semanas antes do incêndio, ele escreveu:
“Depois que resolver a questão do apartamento e do dinheiro, termino tudo.”
Verônica respondeu:
“E a Natália?”
Damian:
“Ela vai se acostumar. O importante é não perder primeiro a minha parte.”
Li novamente.
Elena perguntou:
— Quer que eu continue?
— Sim.
Algumas mensagens depois, Verônica escreveu:
“Não quero que você continue com ela por culpa depois do incêndio.”
A data.
Três dias depois do incêndio.
Parei de ler.
— Ela sabia?
— Parece que sim.
— E mesmo assim ele ficou sentado ao lado da minha cama no hospital.
Elena não disse nada.
E foi melhor assim.
Às vezes, um advogado não deve dizer nada.
Um mês depois, Damian finalmente concordou em se encontrar.
Não em casa.
No escritório de Elena.
Fui acompanhada pela minha mãe, mas entrei sozinha na sala de reunião.
Ele parecia cansado.
— Como você está?
Quase ri.
— Você realmente quer saber?
— Quero.
— Dói.
Ele assentiu.
— Sinto muito.
— Pelo quê, exatamente?
— Por tudo.
— Uma palavra conveniente.
Ele baixou os olhos.
— Eu não queria que tudo acontecesse desse jeito.
— De que jeito?
— Depois do incêndio.
— Você pretendia ir embora antes?
Ele ficou em silêncio.
— Sim ou não?
— Sim.
Senti alguma coisa dentro de mim finalmente se soltar.
— Por que não foi?
— Você estava no hospital.
— Então ficou por culpa?
Ele não respondeu.
— Damian.
— Em parte.
A honestidade chegou tarde demais.
Mas pelo menos chegou.
— E depois?
— Eu não conseguia olhar para você.
A frase me atingiu com mais força do que eu esperava.
— Por causa das queimaduras?
Ele respondeu imediatamente:
— Não.
Rápido demais.
Continuei olhando para ele.
Ele desistiu.
— Às vezes, sim.
Senti minha mão se dirigir automaticamente ao curativo no pescoço.
Parei.
— Entendi.
— Natália, isso soa horrível.
— Porque é horrível.
— Eu me sentia culpado.
— Pelo quê?
— Porque você voltou por minha causa.
Eu não esperava aquilo.
— Por quê?
— Porque, se você não tivesse voltado…
Ele não terminou.
— Eu não teria me machucado?
— Sim.
— E você talvez tivesse morrido.
— Sim.
Ele cobriu o rosto com as mãos.
— Toda vez que olhava para você, eu via o que você tinha feito por mim.
— E por isso você ia para a Verônica.
Ele não respondeu.
— Isso não é culpa, Damian.
Falei com muita calma.
— É uma escolha.
Ele levantou a cabeça.
— Eu sei.
— Ótimo.
Coloquei diante dele uma cópia do processo do seguro.
— Agora, vamos falar do dinheiro.
Ele ficou tenso.
— Que dinheiro?
— Não comece.
— Eu ia contar tudo.
— Quando?
— Depois do pagamento.
— Então você pretendia receber a indenização pelas minhas lesões em uma conta conjunta que você praticamente administrava sozinho e só depois me contar?
— O dinheiro seria nosso.
— Minhas lesões não são um projeto de investimento familiar.
— É uma apólice de seguro.
— Exatamente.
Ele se exaltou.
— Eu pagava os prêmios!
— Com o dinheiro do orçamento comum.
— Eu cuidava da documentação!
— Enquanto eu estava na UTI.
Silêncio.
— Você queria roubar o dinheiro?
Ele levantou a cabeça de repente.
— Não.
— Então o quê?
— Eu achava que o dinheiro ajudaria nós dois a começar de novo.
— Nós?
— Seu tratamento. E minha moradia depois do divórcio.
Era isso.
Fiquei olhando para ele por alguns segundos.
— Você pretendia usar o dinheiro das minhas queimaduras para pagar sua nova casa?
Ele percebeu como aquilo soava.
— Não foi assim.
— Foi exatamente assim.
— Eu teria deixado a maior parte para você.
Levantei-me.
— A conversa terminou.
Ele segurou a borda da mesa.
— Natália.
— Não.
— Eu estou vivo graças a você.
Parei.
— Justamente por isso, você deveria ao menos não ter tentado cobrar uma conta pelo fato de eu ter salvado você.
Saí.
Depois que revoguei a procuração, a seguradora alterou o procedimento de pagamento.
A parte médica passou a ser paga diretamente, mediante comprovação das despesas, a mim.
As demais reivindicações patrimoniais foram analisadas separadamente.
Não recebi três milhões de pesos de uma vez.
O valor real ficou abaixo do limite máximo.
Mas foi suficiente para cobrir uma parte significativa do tratamento, da terapia e da moradia temporária.
O divórcio levou quase um ano.
Não porque fôssemos absurdamente ricos.
Mas porque discutíamos o apartamento, a conta de investimentos, as dívidas e quais valores deveriam ser considerados patrimônio comum.
Damian devolveu parte do dinheiro que havia retirado da conta.
Outra parte foi compensada na divisão dos bens.
O apartamento ficou comigo depois de um acordo, e a parte dele foi compensada por meio de outros ativos.
Mas eu não morava lá.
Não conseguia.
Voltei pela primeira vez oito meses depois do incêndio.
O lugar já havia sido reformado.
As paredes estavam claras.
O teto era novo.
O quarto de hóspedes havia sido restaurado.
Não havia mais fumaça.
Mas bastava fechar os olhos e eu ainda sentia o cheiro.
Vendi o apartamento.
Minha mãe perguntou:
— Você não sente pena?
— Muita.
— Então por quê?
Olhei para ela.
— Porque sentir pena de alguma coisa não significa que precisamos mantê-la.
Comprei um apartamento pequeno mais perto dos meus pais.
Com uma janela enorme.
No começo, dormia com a luz acesa.
Depois, com uma luz noturna.
Mais tarde, sem nenhuma.
A recuperação foi lenta.
Os médicos não mentiram.
Realmente levaria anos.
Cirurgias.
Roupas de compressão.
Fisioterapia.
Procedimentos.
Algumas áreas da pele continuavam extremamente sensíveis.
Outras quase não sentiam nada.
Durante muito tempo, evitei espelhos.
Até que, certa vez, minha terapeuta disse:
— Você olha para as cicatrizes apenas como algo que lhe foi tirado.
— E como deveria olhar?
— Não sei.
Ela sorriu.
— Isso é algo que você terá que decidir.
Não gostei da resposta.
Mas guardei aquelas palavras.
Nunca encontrei Verônica.
Uma vez, ela me escreveu.
Uma mensagem muito longa.
Li as três primeiras linhas.
Depois apaguei.
Não porque ela fosse inocente.
Ela sabia que Damian era casado.
Mas eu não queria construir uma nova vida em torno de uma mulher que nunca tinha sido minha esposa e nunca me havia feito promessa alguma.
Quem havia prometido era ele.
Dois anos depois do divórcio, Damian pediu para nos encontrarmos.
Aceitei.
Não por amor.
Por curiosidade.
Ele parecia diferente.
Estava mais magro.
Verônica já não estava com ele.
Não perguntei por quê.
Sentamos em um café.
Ele olhava para o lado esquerdo do meu rosto.
Não desviou os olhos.
Pela primeira vez.
— Você está bem.
Sorri.
— Agora consegue olhar?
Ele estremeceu.
— Eu mereci.
— Sim.
Ele ficou em silêncio.
— Penso muito naquela noite.
— Eu também.
— Por que você voltou?
A pergunta me surpreendeu.
— Por você.
— Eu sei. Mas por quê?
Olhei para a xícara.
A resposta sincera era simples.
— Porque eu amava você.
Ele fechou os olhos.
— Eu não merecia isso.
— Naquele momento, isso não importava.
Ele olhou para mim.
— Você se arrepende?
Pensei.
Por muito tempo.
— De ter salvado você?
— Sim.
— Não.
Ele claramente não esperava.
— Mesmo depois de tudo?
— Mesmo depois de tudo.
— Por quê?
— Porque não quero que as coisas que você fez depois transformem o que eu fiz naquela noite em um erro.
Ele ficou em silêncio.
Continuei:
— Eu estava salvando uma pessoa de uma casa em chamas. Não estava assinando um contrato para continuar sendo sua esposa para sempre.
Os lábios dele tremeram.
— Me perdoa.
— Eu ouvi.
— Você algum dia vai me perdoar?
Olhei para ele.
— Talvez.
Ele se animou.
— Sério?
— Mas você está confundindo perdão com voltar para você.
O sorriso desapareceu.
— Não haverá volta.
Ele assentiu.
E, dessa vez, não discutiu.
Mais dois anos se passaram.
Certa noite, eu estava preparando o jantar.
Com a mão esquerda.
A mesma mão que, depois da cirurgia, mal conseguia segurar uma colher.
Não perfeitamente.
Alguns movimentos continuavam limitados.
Mas eu conseguia.
Sobre a mesa havia dois pratos.
Minha mãe tinha vindo me visitar.
Ela olhou.
— Lembra daquele jantar?
Claro que lembrava.
A noite depois da cirurgia.
O prato preferido dele.
O prato intocado.
A mala.
— Sim.
— Não é difícil preparar isso de novo?
Provei o molho.
— Agora é meu prato preferido.
Ela riu.
— Mentira.
— Um pouco.
Sentamos.
Na parede não havia fotografias do casamento.
Mas eu também já não escondia as cicatrizes com golas altas.
Às vezes, as pessoas olhavam.
Algumas desviavam o olhar rapidamente.
Antes, eu percebia cada uma delas.
Agora, quase não.
O fogo mudou meu rosto.
Damian mudou minha visão sobre o casamento.
Mas nenhum dos dois ganhou o direito de decidir quem eu me tornaria depois.
A coisa mais assustadora daquela noite não aconteceu quando meu marido fez as malas.
Nem sequer quando, uma semana depois, pediu o divórcio.
O pior já vinha acontecendo antes.
Quando, durante meses, tentei convencer a mim mesma de que a ausência dele era apenas cansaço.
Que a frieza era consequência do trauma.
Que as mentiras eram viagens de trabalho.
Que eu só precisava ser mais paciente, mais bonita, mais tranquila, mais grata.
O fogo me ensinou a sair de uma casa em chamas.
Mas precisei de muito mais tempo para compreender:
às vezes, não é preciso entrar novamente.