A casa ainda cheirava à minha mãe. Seu óleo de alecrim pairava no ar, os chinelos estavam ao lado da cama, e os óculos de leitura repousavam sobre a mesa, esperando por alguém que nunca mais voltaria. O câncer a levou durante oito meses. Pedaço por pedaço. Paul, meu padrasto, esteve ao lado dela até o fim. Assim como Linda, a melhor amiga da minha mãe desde a faculdade. Ela os chamava de seus anjos. – Somos uma equipe – dizia Linda, apertando meu ombro. – Sua mãe não está lutando sozinha.
Mas, na verdade, minha mãe estava mais sozinha do que eu poderia imaginar.
Quatro semanas após o funeral, Paul bateu à minha porta. Parecia nervoso. – Preciso te contar uma coisa – começou, passando os dedos pelo cabelo. – Antes que você descubra por outra pessoa. Linda e eu… decidimos nos casar. Fiquei paralisada. – Como é? – consegui dizer. – Mamãe morreu há 28 dias. – Eu sei que é repentino… – começou ele. – Repentino?! Isso é loucura! Linda era a melhor amiga dela! Você era o marido dela! – Eu era – ele me corrigiu friamente. Expulsei-o de casa.
Um mês depois, eles se casaram. As fotos inundaram o Facebook. “Novo começo”, “Luz na escuridão”. Linda usava um vestido cor champanhe. Então me lembrei do colar da mamãe. Dourado, com diamantes, que ela prometeu me dar. Liguei para Paul. – Onde está o colar da mamãe? Silêncio. – Paul? – Tivemos que tomar certas decisões financeiras… Precisávamos de dinheiro para a lua de mel. – Você o vendeu?! – gritei. – Era minha lembrança! – São apenas coisas, querida. Isso importa agora? – ele desligou.
Dois dias depois, encontrei Linda na loja. – Valeu a pena? – perguntei, tremendo de raiva. – Vender o colar da minha mãe para ir ao Havaí? Ela riu. – Ah, aquela velharia? Só juntava poeira. Sentimentos não pagam férias de luxo, querida. Cresça.
ENTÃO SARA SE APROXIMOU DE MIM, A ENFERMEIRA QUE CUIDAVA DA MAMÃE.
Então Sara se aproximou de mim, a enfermeira que cuidava da mamãe. – Você precisa saber de uma coisa – sussurrou. – Eles tinham um caso muito antes da morte da sua mãe. Eu os vi no hospital. Estavam se beijando no estacionamento enquanto ela morria lá em cima. Ouvi quando brincavam que tinham que “fingir ser enfermeiros”. Estavam planejando essa viagem enquanto sua mãe tomava morfina para não gritar de dor.
Meu mundo parou. Não era apenas tristeza. Era raiva. Uma raiva fria, precisa.
Liguei para Paul. Pedi desculpas. Disse que queria fazer as pazes. Que tinha um presente de casamento para eles. Ele ficou feliz. Convidaram-me para a casa deles após voltarem da viagem. Quando cheguei, Linda serviu biscoitos. Paul sorria de forma paternal. Entreguei a eles um fichário grosso. – É para vocês.
Eles o abriram. Os sorrisos desapareceram. Dentro havia impressões de e-mails, mensagens de texto e fotos. Tudo com datas anteriores à morte da mamãe. Provas do caso. Provas de que estavam esperando a morte dela. Provas de que roubaram dinheiro da conta dela antes mesmo de ela partir. O recibo do penhor do colar com a assinatura de Linda.
– De onde você tirou isso?! – gritou Linda. – Do computador do Paul – disse calmamente. – Ele nunca sai da conta na nuvem. E a chave da casa da mamãe ainda funciona.
NO TOPO HAVIA UM BILHETE: “CÓPIAS FORAM ENVIADAS AO ADVOGADO RESPONSÁVEL PELO INVENTÁRIO, AO EMPREGADOR DE PAUL E A TODOS OS AMIGOS EM COMUM DE LINDA E DA MAMÃE.
No topo havia um bilhete: “Cópias foram enviadas ao advogado responsável pelo inventário, ao empregador de Paul e a todos os amigos em comum de Linda e da mamãe. Eu acredito em transparência. E vocês?”
Levantei-me e saí, deixando-os nas ruínas de seu “novo começo”.
As consequências foram rápidas. O advogado congelou as contas deles. O colar foi recuperado. A empresa de Paul o demitiu por usar equipamentos da empresa para “fins antiéticos” durante o expediente. Os amigos de Linda se afastaram dela. Ela ficou sozinha.
Eles não perderam apenas dinheiro. Perderam a reputação. Hoje uso o colar da mamãe. Às vezes o toco e penso nela. O amor não morre. Mas a mentira? A mentira sempre acaba vindo à tona.
E vocês? O que teriam feito no meu lugar? Acham que minha vingança foi cruel demais? Deixem sua opinião nos comentários do Facebook!