Quando o seu filho decidiu ficar na cidade depois dos estudos e a sua mulher não aguentou o silêncio e foi juntar-se a ele, o guarda florestal ficou sozinho. Não de uma forma simpática, mas verdadeiramente sozinho – entre pinheiros, caminhos florestais e uma velha cabana com fogão.
Com o passar do tempo, a floresta deixou de ser apenas um trabalho para ele e passou a ser algo como uma família. Conhecia cada monte, cada clareira e cada riacho. De manhã saudou o nevoeiro e à noite ouviu o vento a farfalhar nas copas das árvores.
No final de maio, após uma tempestade noturna, foi verificar a parte mais remota da sua região. O ar cheirava a terra molhada e a resina. Tudo parecia calmo até que sentiu outro cheiro – forte, amargo, estranho. Não era apenas fumo de fogueira. Havia algo de químico e desagradável nisso.
Saiu do caminho e foi em direção ao desfiladeiro. Havia ainda uma montanha de lixo a fumegar ali: latas de plástico, uma lona queimada, pedaços de materiais sintéticos. Alguém ateou fogo ao local e saiu sem sequer se certificar de que o fogo estava extinto. A chuva sufocou as chamas, mas o fumo denso ainda pairava no ar.
Ao lado desta pilha negra reparou na entrada de uma toca de raposa. O solo estava escorregadio, as bermas estavam chamuscadas e a passagem estava quase soterrada.

Aproximou-se, cobriu o rosto com a manga e depois ouviu algo. Não foi um grito, mas sim um arranhão baixo e desesperado, como se alguém tentasse gritar por socorro.
O guarda florestal compreendeu imediatamente o que tinha acontecido. Atirou a mochila para o chão, tirou uma pequena pá e começou a escavar cuidadosamente a terra ainda quente. Trabalhou devagar para não desabar o teto da toca. Passados alguns minutos, a passagem alargou-se e ele pôde ver o interior.
Havia três bolinhas de pelos a mexer no fundo do buraco. Crias de raposa. Minúsculo, ainda cego. Espetaram o focinho no chão, tremeram e gritaram baixinho. A raposa adulta não foi encontrada em lado nenhum. Talvez ela tenha morrido ou talvez tenha fugido em pânico. O guarda florestal preferiu não pensar nisso.
Tirou-os um por um com o máximo cuidado. Estavam quentes e cheiravam a leite e fumo. Dois deles tinham o pelo vermelho intenso, o terceiro era mais escuro, como se estivesse salpicado de cinzas.
NAQUELE DIA, AO SALVAR TRÊS RAPOSINHAS, O silvicultor nem sequer pensou no que aconteceria alguns anos mais tarde.
Nesse dia, ao salvar três raposinhas, o silvicultor não fazia ideia do que iria acontecer alguns anos mais tarde.
Alimentava-os com biberão, aquecia-os no fogão e acordava à noite quando começavam a chiar. A princípio dormiram numa velha caixa de madeira, depois correram pela casa toda, enroscaram-se entre as pernas e morderam as mangas do blusão.
O guarda-florestal falava com eles como crianças, mesmo sabendo que um dia teria de os deixar partir.
Quando as raposas cresceram, começou a levá-las para a floresta. Primeiro para caminhadas curtas, depois cada vez mais. Um dia não voltaram. Esperou um dia, depois outro, depois uma semana inteira.
Os anos passaram.

Até que um dia, no final do Outono, quando a floresta parecia especialmente vazia, aconteceu algo para o qual ele não estava preparado…
Um dos invernos foi excecionalmente rigoroso. A geada estava quase a trinta graus negativos e o vento batia nas paredes da casa como se quisesse desmontá-la viga a viga. A princípio, o guarda-florestal não prestou atenção à fraqueza – pensou que se tratava de uma constipação comum e que em breve passaria. Porém, a cada dia que passava, as suas forças abandonavam-no. Mal conseguia sair da cama, a água do balde congelou e a lenha acabou mais cedo do que esperava.
Sabia que devia ir para a aldeia, mas já não tinha forças para o fazer. Cada passo foi um grande esforço. Finalmente deitou-se na cama e ficou a olhar para o teto durante muito tempo.
Durante a noite ouviu um uivo. Longo, prolongado, muito próximo. Pensou que era apenas o vento nos ramos. Mas o uivo voltou. E depois novamente. De manhã, alguém estava a arranhar a porta.
FICOU DIFÍCIL, FOI À JANELA E VIU TRÊS RAPOSAS.
Levantou-se com dificuldade, dirigiu-se à janela e viu três raposas. Estavam parados mesmo na frente da soleira. Não tiveram medo, não fugiram. Circularam em redor da cabana e uivaram novamente, como se chamassem alguém.
No mesmo dia, um grupo de turistas caminhava pelo caminho da floresta. Caminhavam em direção ao lago congelado e, a princípio, ficaram surpreendidos ao ver que as raposas não fugiram, mas correram à sua frente, pararam e olharam para trás. Um deles até brincou dizendo que os animais pareciam querer levá-los para algum lado.
E com certeza, as raposas levaram-nos diretamente para a cabana.
A porta estava fechada e não saía fumo da chaminé. Eles bateram. Silêncio. Finalmente, um dos homens encostou o ombro à porta e abriu-a.
Encontraram o guarda-florestal quase inconsciente.

Conseguiram levá-lo ao hospital a tempo. Mais tarde, os médicos disseram mais um dia – e tudo poderia ter terminado de forma completamente diferente.
Quando regressou à sua cabana, na primavera, a neve já começava a derreter. Saiu para a varanda e olhou longamente para a floresta. E de repente, três raposas apareceram por entre as árvores.
Pararam a alguns passos de distância. Olharam-no com calma, sem qualquer traço de medo.
Ele não disse nada. Ele limitou-se a assentir – como um velho amigo.