O homem ficou longos segundos apenas olhando para o papel.
Não restava nenhum vestígio da confiança de antes.
– Desculpe… isso é algum tipo de piada?
– Não – respondi calmamente.
– Nunca vi algo assim antes.
– Eu também nunca vi muitas coisas. Por exemplo, nunca tinha visto alguém encharcar de propósito duas vezes um desconhecido na faixa de pedestres.
O homem abaixou a cabeça.
Pela primeira vez, pareceu desconfortável.
– OLHE… EU TIVE UM DIA RUIM.
– E por isso pode humilhar os outros?
Ele não respondeu.
O silêncio ficou cada vez mais constrangedor.
Então ele olhou novamente para o contrato.
– Esta condição adicional…
– Sim.
– Está falando sério?
– TOTALMENTE.
No documento, afinal, não havia nenhuma multa em dinheiro.
Nenhuma vingança.
Nenhuma humilhação.
Algo muito mais incômodo.
O novo programa de liderança da empresa.
Todos os altos executivos eram obrigados a participar dele.
Tinham de passar dois dias inteiros por mês em abrigos para pessoas em situação de rua, cozinhas comunitárias, lares de idosos e programas de caridade.
Pessoalmente.
Sem desculpas.
O homem olhou para mim, incrédulo.
– Isso é obrigatório?
– Sim.
– Por quê?
– Porque, para nós, não é apenas a competência profissional que importa.
O homem se recostou.
VISIVELMENTE, NÃO ERA ISSO QUE ELE ESPERAVA.
– Então é por isso que quer rejeitar minha candidatura?
– Não.
Agora ele estava completamente confuso.
– Então o que está acontecendo?
– O que está acontecendo é que você é excelente profissionalmente.
Uma centelha de esperança surgiu em seus olhos.
– Mas?
– MAS, ESTA MANHÃ, VOCÊ MOSTROU COMO TRATA AS PESSOAS DAS QUAIS NÃO ESPERA NADA.
O silêncio voltou a tomar conta da sala.
Desta vez, mais longo.
Muito mais longo.
Então, inesperadamente, o homem suspirou.
– Sabe do que eu mais tenho medo?
Não respondi.
– De que você esteja dizendo a verdade.
ESSA FOI A PRIMEIRA FRASE SINCERA DELE.
Ele tirou os óculos.
Enxugou os olhos.
– Meu pai sempre dizia exatamente a mesma coisa.
Pela primeira vez, não era o empresário confiante que estava sentado diante de mim.
Mas um homem cansado.
– O que ele dizia?
– Que o verdadeiro caráter de uma pessoa se revela pela maneira como ela trata aqueles de quem não precisa de nada.
ASSENTI LENTAMENTE.
– Ele devia ser um homem sábio.
O homem sorriu amargamente.
– Era. E eu não o escuto há anos.
Conversamos por mais alguns minutos.
Não sobre o currículo.
Não sobre negócios.
Mas sobre humanidade.
Responsabilidade.
Respeito.
Quando a entrevista terminou, ele se levantou.
– Não sei se mereço este emprego.
– Isso ainda é uma questão para o futuro.
– E o que você acha?
Sorri.
– Acho que o que importa é o que você fará a partir de amanhã.
O HOMEM ASSENTIU.
Então caminhou até a porta.
Achei que fosse embora.
Mas ele se virou.
– A propósito…
– Sim?
– Gostaria de pagar a conta da lavanderia.
Pela primeira vez naquele dia, eu ri.
– JÁ NÃO SE TRATA MAIS DA ROUPA.
– Eu sei.
– Então do quê?
– De finalmente assumir a responsabilidade por alguma coisa.
Alguns meses depois, nos encontramos novamente em um dos eventos do programa de liderança.
Ele foi o primeiro a chegar.
E o último a ir embora.
Naquela noite, percebi uma coisa.
ÀS VEZES, A ENTREVISTA DE EMPREGO MAIS IMPORTANTE NÃO ACONTECE NO ESCRITÓRIO.
Mas muito antes.
Ao lado de uma poça.
Quando ninguém está olhando.
Ou pelo menos é isso que pensamos.